Poucas operações têm tanto trabalho repetitivo feito por gente tão cara quanto um escritório de advocacia. Conferir publicação, cadastrar processo, responder andamento, reunir documento, cobrar pendência: tudo necessário, tudo recorrente, e boa parte feita por quem deveria estar advogando. É o tipo de rotina em que agentes de IA funcionam bem, e também o setor em que um desenho errado custa mais caro, porque o erro pode ser um prazo perdido ou um sigilo quebrado.
Este guia é para quem decide e implanta, no escritório, no departamento jurídico ou na empresa de ativos judiciais: o que cabe num agente, o que não cabe, onde a aprovação é obrigatória e como começar com sigilo e trilha desde o primeiro dia.
Este texto é guia de operação e de decisão, não parecer jurídico nem deontológico. Como cada regra se aplica à sua operação é avaliação de quem responde por ética e por proteção de dados na sua casa.
A linha que organiza tudo: fato com o agente, juízo com o advogado
Um critério decide todos os processos. O Estatuto da Advocacia reserva ao advogado, entre outras, as atividades de consultoria, assessoria e direção jurídicas (Lei 8.906/1994, art. 1º, II). A recomendação do Conselho Federal da OAB sobre IA generativa, de novembro de 2024, vai na mesma direção: o julgamento profissional não deve ser feito por sistema de IA sem supervisão humana, e nenhuma atividade privativa da advocacia deve ser delegada a ele (item 3.1).
Na prática, isso vira um teste simples. Se o resultado da tarefa é um fato, ela tende a caber no agente: a publicação saiu, o documento está faltando, o processo foi cadastrado, a parcela venceu. Se o resultado é uma opinião sobre o direito do cliente, ela é do advogado: vale recorrer, o acordo é bom, a cláusula é aceitável. O agente pode preparar tudo o que antecede a opinião, e é aí que está a maior parte das horas.
Em agosto de 2026, o plenário do Conselho Federal aprovou medidas judiciais contra empresas de IA que pratiquem atos privativos da advocacia e registrou que análise de casos, definição da estratégia jurídica e contratação pelo cliente são atividades da advocacia. Para quem desenha agentes, a consequência é a mesma: a IA entra como ferramenta de apoio ao advogado, não no lugar dele.
Os processos que cabem num agente
Nove rotinas aparecem em quase todo escritório. Em cada uma, o que muda é a parte que o agente assume e o ponto em que uma pessoa entra.
1. Entrada e triagem de novos casos
O agente recebe o contato pelo site, e-mail ou WhatsApp, coleta os fatos e os documentos iniciais, roda a consulta de conflito na base de clientes e encaminha para a área e o sócio certos. Não avalia mérito, não indica chance de êxito, não propõe honorário nem aceita o caso. Ele se apresenta como assistente automatizado, porque a recomendação da OAB pede que o interlocutor saiba que fala com uma máquina (item 2.4). E atende quem procurou o escritório: angariar causas é outra coisa, que o Estatuto trata como infração disciplinar (art. 34, IV).
2. Publicações, intimações e prazos
A rotina de maior valor e de erro mais caro. O agente lê as publicações do dia, vincula cada uma ao processo, identifica o ato e propõe o prazo e o responsável. Quem confirma o prazo é uma pessoa, sempre, antes de ele entrar na agenda. O ganho não é eliminar a conferência; é eliminar a leitura, a triagem e a digitação, para que conferir seja confirmar. Publicação que o agente não consegue vincular ou classificar com confiança vai para uma fila própria, e não para o silêncio.
3. Cadastro e atualização de processos
Da petição inicial, da citação ou da distribuição sai o cadastro: partes, número, vara, assunto, valor da causa, cliente e responsável. O agente lê o documento, preenche o sistema e depois atualiza a pasta a cada andamento. Como o erro é reversível e o volume é alto, o modo certo costuma ser revisar depois, por amostra. A exceção é qualquer campo que gere prazo, que volta para a regra anterior.
4. Andamento e atendimento ao cliente
Boa parte das mensagens ao advogado é rotina: como está o processo, qual o próximo passo, falta algum documento. O agente responde na hora, com a informação do sistema, e transfere quando a pergunta é de mérito. A fronteira cabe numa frase: informar que saiu uma decisão é rotina; explicar o que ela significa para o caso é consultoria. O cliente que pedir uma pessoa fala com uma pessoa, como a recomendação da OAB prevê (item 4.3). O relatório periódico segue a mesma lógica: o agente monta, o advogado revisa e assina.
5. Cálculo e conferência
Atualização de valores, liquidação, conferência do cálculo da parte contrária ou do perito. O agente reúne os dados, aplica os critérios que o advogado definiu (índice, termo inicial, base), entrega a memória de cálculo e aponta onde o outro lado diverge. Dois cuidados: escolher o critério é decisão jurídica, então o agente aplica e não escolhe; e a conta roda numa ferramenta determinística chamada pelo agente, não no modelo de linguagem, que não é calculadora.
6. Due diligence e revisão de documentos
Em auditoria de contratos, operação societária ou análise de carteira, o agente lê o volume e preenche o checklist do time: partes, vigência, garantias, rescisão, documentos faltantes, divergências entre versões. Cada item extraído aponta para o documento e o trecho de onde saiu, para que o advogado confira em vez de reler. Avaliação de risco e conclusão ficam com ele.
7. Contratos
Primeira minuta a partir do modelo aprovado, comparação da versão da contraparte com o manual de posições aceitas, lista das cláusulas fora do padrão. A negociação e a versão final são do advogado.
8. Cobrança de honorários
Lembrete antes do vencimento, segunda via, status de pagamento e renegociação dentro da política dos sócios. Acima da alçada, o caso vai para uma pessoa. É mensagem delicada para o cliente, e o tom merece o mesmo desenho que o fluxo.
9. Pesquisa e base de conhecimento
Localizar precedentes, modelos e peças anteriores do escritório e resumir o que é longo. O risco aqui tem nome: a citação que não existe. A recomendação da OAB pede atenção especial ao levantamento de doutrina e jurisprudência com IA, lembrando os deveres do art. 77 do Código de Processo Civil, em especial a veracidade do que se apresenta em juízo (item 3.2), e revisão integral de toda saída de IA antes de ela ir a um processo (item 3.7). O desenho que atende isso: o agente só cita o que recuperou de uma fonte real, com link para o documento, e o advogado confere antes de usar.
O que fica fora do agente
Algumas tarefas não vão para o agente, por melhor que ele seja. Listá-las antes evita a discussão no meio do projeto.
- Estratégia e parecer de mérito. Se recorre, se faz acordo, se a tese se sustenta. É consultoria e direção jurídica, reservadas ao advogado.
- Assinatura e protocolo. O que vai a juízo é revisado por inteiro e protocolado pelo advogado. O agente pode preparar um rascunho; não pode ser o último a tocá-lo.
- Aceite do caso e honorários. Contratação pelo cliente é atividade da advocacia, e conflito de interesses é decisão do sócio.
- Negociação com a parte contrária. Proposta e contraproposta passam pelo advogado, mesmo quando o agente redige a mensagem.
- Conversa difícil com o cliente. Decisão desfavorável, caso de família, caso criminal. O motivo aqui é menos de regra e mais de relação: essa conversa é do advogado.
- Trabalho único e de baixo volume. Quando cada caso é diferente do anterior, o custo de desenhar o agente não se paga, e o advogado resolve mais rápido sozinho.
Nenhum item da lista é limitação técnica. É divisão de responsabilidade, e é ela que permite ao escritório usar agentes sem expor o advogado.
Onde a aprovação humana é obrigatória
Supervisão humana no jurídico não é um botão global. É decisão por ação, em três modos que convivem no mesmo agente: aprovar antes, revisar depois e transferir. O guia de human-in-the-loop detalha os três; aplicados ao escritório, ficam assim:
| Ação do agente | Modo | Por quê |
|---|---|---|
| Propor prazo a partir de publicação | Aprovar antes | Erro de prazo custa caro e é responsabilidade profissional. |
| Preparar texto que vai a juízo | Aprovar antes, com revisão integral | A recomendação da OAB pede revisão de toda saída de IA antes do processo. |
| Enviar documento para fora do escritório | Aprovar antes | Sigilo: o que saiu não volta. |
| Abrir novo caso após a consulta de conflito | Aprovar antes, pelo sócio | Aceitar cliente é decisão da advocacia. |
| Renegociar honorário fora da política | Aprovar antes | Valor acima da alçada definida. |
| Responder andamento factual ao cliente | Revisar depois, por amostra | Baixo risco e alto volume. |
| Cadastrar processo e atualizar andamento | Revisar depois, por amostra | Erro reversível e detectável. |
| Responder pergunta de mérito do cliente | Transferir ao advogado | É consultoria, não rotina. |
Dois detalhes decidem se isso funciona. O pedido de aprovação chega pronto (a publicação, o ato identificado, o prazo proposto e o motivo), para que quem aprova confirme em vez de investigar. E a fila de aprovação tem dono e prazo, porque prazo processual parado numa fila de aprovação é o pior dos dois mundos.
Integração com os sistemas do escritório
A lista costuma ser a mesma: o software de gestão de processos (pastas, partes, andamentos e prazos), a fonte de publicações, o e-mail, o repositório de documentos, o controle de horas, o financeiro, o CRM e o WhatsApp.
O primeiro trabalho é classificar cada um nos quatro níveis de integração (conector pronto, API documentada, banco acessível, legado sem API), porque o cronograma é o do pior nível. Depois, três cuidados do setor:
- Comece pela leitura. Um agente que consulta a pasta e responde andamento já muda a rotina e passa mais rápido pela revisão de segurança. Escrita entra depois, uma operação por vez, com aprovação.
- Permissão por cliente e por pasta. O agente que atende o cliente A não lê a pasta do cliente B, nem a área isolada por uma barreira de informação. Credencial de sistema com acesso amplo derruba esse desenho; a integração respeita a permissão de quem pediu ou se restringe ao mínimo.
- Idempotência. A mesma publicação processada duas vezes não pode criar dois prazos. Toda escrita precisa de verificação prévia ou de chave de idempotência.
Sigilo profissional e LGPD
Violar o sigilo profissional sem justa causa é infração disciplinar (Estatuto da Advocacia, art. 34, VII). Por isso a pergunta sobre por onde passa o dado do cliente vem antes da pergunta sobre o que o agente faz. A recomendação da OAB pede atenção especial a dados que possam tornar o cliente identificável (item 2.1) e diligência na escolha do fornecedor, que deve proteger a informação, adotar medidas de segurança e permitir que os dados não sejam usados para treinar os sistemas (item 2.2).
Na prática, cinco controles resolvem a maior parte:
- Mínimo necessário. O modelo recebe o trecho de que precisa, não a pasta inteira. Identificador que não muda a resposta é removido antes de sair.
- Retenção e treinamento por escrito. O que o provedor do modelo guarda, por quanto tempo, quem acessa e se usa o conteúdo para treinar. Quando o sigilo exige, provedor sem retenção ou modelo na sua própria infraestrutura.
- Segregação entre clientes. O que é de um cliente não aparece na resposta para outro. É a permissão por pasta da seção anterior, vista pelo lado do sigilo.
- Dado sensível. Processos trabalhistas, previdenciários e de família trazem com frequência dado de saúde, que a LGPD trata como sensível. O post sobre governança e LGPD cobre os controles.
- Transparência com o cliente. A recomendação da OAB prevê que o advogado formalize ao cliente, por escrito e antes de começar, a intenção de usar IA, explicando propósito, limites, riscos e medidas de segurança, e colha o consentimento expresso (itens 4.1.1, 4.2.1 e 4.3.1). Vale revisar o modelo de contrato de honorários antes do piloto, e não depois.
Trilha de auditoria: reconstruir qualquer resposta
Quando um cliente questiona uma informação, quando a sócia quer saber por que um prazo foi proposto daquele jeito ou quando surge uma questão ética, o escritório precisa mostrar o que aconteceu e quem decidiu. Para cada execução do agente, registre:
- o documento ou a publicação que ele leu;
- a versão do agente e das instruções que estavam no ar;
- cada consulta a sistema, com parâmetro e retorno;
- o que ele propôs, e com que justificativa;
- quem aprovou, alterou ou recusou, e quando;
- o que foi enviado ao cliente, e por qual canal.
Dois cuidados costumam faltar. A trilha também é dado sigiloso, com as mesmas regras de acesso e retenção das pastas. E ela é matéria-prima de qualidade: cada prazo alterado e cada resposta recusada vira caso de teste para a próxima versão. O post sobre observabilidade detalha o que registrar.
Por onde começar e como medir
O primeiro agente não deve ser o mais ambicioso, e sim o que prova o modelo de trabalho com risco baixo. Cinco critérios ajudam a escolher:
- Volume diário. Rotina que acontece todo dia, não uma vez por trimestre.
- Resultado factual. Pelo teste da primeira seção: fato, não opinião.
- Erro conferível. Dá para revisar por amostra, ou a aprovação é rápida porque a proposta chega pronta.
- Dado acessível. O sistema tem API, exportação ou conector; se não tem, isso precisa estar no cronograma.
- Métrica que já existe. Ou que dá para medir por algumas semanas antes de o agente entrar, porque sem linha de base nenhum resultado é demonstrável.
Andamento ao cliente, cadastro de processos e triagem de novos contatos costumam passar nos cinco. Publicações e prazos têm o maior valor e entram cedo, mas sempre no modo aprovar antes.
| Caso | Linha de base | O que medir com o agente |
|---|---|---|
| Andamento ao cliente | Quantas perguntas de rotina chegam por semana, e quem responde. | Parcela respondida sem o advogado, tempo até a resposta, transferências por motivo. |
| Cadastro de processos | Tempo entre a distribuição e o cadastro completo. | Tempo de cadastro e erros encontrados na revisão por amostra. |
| Triagem de novos casos | Tempo até o primeiro retorno ao potencial cliente. | Tempo até o retorno, encaminhamentos à área certa, tempo até o sócio. |
| Publicações e prazos | Tempo entre a publicação e o prazo confirmado na agenda. | Esse tempo, propostas confirmadas sem alteração e alterações por motivo. |
Se o escritório controla horas, parte da linha de base já existe: as horas do time sênior lançadas em atividade administrativa ou não faturável. Registre esse número antes do primeiro dia. O texto sobre por que projetos morrem na POC explica por que a métrica vem antes da construção.
Departamentos jurídicos e empresas de ativos judiciais
Os princípios valem fora do escritório, com outras rotinas. No departamento jurídico, o agente recebe e classifica as demandas das áreas de negócio (contrato, consulta, notificação), encaminha por tipo e valor, prepara a primeira minuta a partir do modelo aprovado e consolida os relatórios dos escritórios externos numa visão única. Nas empresas de ativos judiciais, ele entra no primeiro contato com o titular do crédito, na coleta de documentos e na consulta ao andamento do processo para o time de análise. Nos dois casos, a decisão (assinar, provisionar, comprar o crédito, definir o preço) fica com uma pessoa.
Como a Runflow atua no jurídico
Os agentes da Runflow assumem a rotina que hoje cai no advogado: organização e preparo de casos, andamento ao cliente com transbordo quando envolve mérito, triagem de novos casos com encaminhamento para a área e o sócio certos, consulta à base de conhecimento, controle de prazos e alertas, cobrança de honorários. Nada de mérito sai sem revisão: o agente cuida da rotina, o advogado assina. A plataforma cobre criar, operar e mensurar cada agente, com isolamento por cliente, sem treinar modelos com o seu dado, self-host quando o sigilo exige, sanitização de dados sensíveis antes do modelo, aprovação humana onde o risco exige e trilha auditável de cada execução.
Demarest e PX Ativos Judiciais estão entre quem já opera com agentes da Runflow no jurídico. Na PX, o primeiro contato saiu da ligação e foi para o WhatsApp: a conversão no primeiro contato foi de 4% para 10%, com cerca de R$ 1,5 milhão convertido no ano sem aumentar o time. No diagnóstico gratuito, mapeamos onde a hora do advogado se perde e qual rotina o primeiro agente assume. Os detalhes do setor estão na página do jurídico.
